Figueira de Melo: Há 106 anos nascia o estádio mais antigo do Rio de Janeiro

Atualizado: 3 de Jul de 2020

Por Lucas Baima - “Aqui nasceu o Fenômeno.” Se você é carioca, morou no Rio de Janeiro ou é fã de futebol, com certeza já viu essa expressão em algum lugar. A conhecida frase está gravada em um dos muros do Estádio Ronaldo Nazário, antes conhecido como Figueira de Melo, casa do São Cristóvão de Futebol e Regatas no bairro imperial do Rio de Janeiro, também chamado de São Cristóvão.

Para falar sobre a inauguração deste estádio tradicionalíssimo, ou como alguns diriam atualmente, estádio raiz, precisamos regressar ao início do século passado, mais precisamente em 1916, quando o futebol aqui em terras tupiniquins estava começando a dar seus primeiros passos. Para se ter uma ideia, era uma época tão remota para o futebol que a Seleção Brasileira ainda não havia conquistado nenhum título.


Os jornais da época tratavam o novo estádio como sombrio e elegante e a festa que era feita pela torcida do São Cristóvão foi muito elogiada pelos cronistas, dada como linda. As novas arquibancadas de madeira, lotadas de torcedores do time do bairro imperial e por entusiastas do futebol, foram consideradas as melhores dentre todos os estádios do Rio de Janeiro.


Arquibancadas do estádio da rua Figueira de Melo.
O jogo

A equipe do Santos foi a convidada especial para a celebração. Até hoje este dia também é lembrado pelos santistas por um motivo inusitado. Como o São Cristóvão só possui um uniforme, todo branco, a equipe do Santos precisou trocar suas camisas no intervalo do jogo para o segundo tempo, colocando assim as famosas camisas listradas em preto e branco.


Apesar de toda a preparação que foi feita arduamente pela diretoria do São Cri-Cri, nem tudo saiu como o esperado. Na semana do jogo a cidade do Rio de Janeiro sofreu com muitas chuvas, o que acabou prejudicando o gramado do novíssimo estádio Figueira de Melo. Foi dito em um jornal, o Correio da Manhã, que o jogo teve a possibilidade de ser transferida para o campo do Fluminense, que se encontrava em melhores condições, mas a festa foi mantida no novo estádio. Este problema poderia passar tranquilamente despercebido, mas o que viria a seguir ficaria marcado.


As duas equipe que participaram do jogo inaugural do estádio da rua Figueira de Melo. Foto:Reprodução/A Careta

A partida teve início às 16:30 quando ambas equipes entraram no campo sob muitos aplausos da torcida que lotava o Figueira de Melo. O primeiro tempo foi bastante movimentado, ambas as equipes fizeram um jogo equilibrado, investidas pelos dois lados aconteceram nos primeiros minutos. Juntando-se ao fato do péssimo estado do campo, os jogadores entravam com muito vigor nas divididas, o que acabou deixando a partida com um aspecto violento. Segundo o jornal Correio da Manhã, o juiz Osny Werner estava atuando de forma parcial favorecendo a equipe santista, o que deixou a torcida da casa furiosa. Os gols da partida saíram ainda no primeiro tempo. Pelo lado do São Cristóvão, Heitor marcou de cabeça após cobrança de escanteio. Logo após 7 minutos veio o empate do Santos com gol marcado por Millon.


Já no início do segundo tempo a torcida continuava furiosa com o juiz. As hostilidades e vaias ouvidas no final da primeira parte se mantiveram. Em uma jogada de ataque do São Cristóvão, o meia Pereira do Santos coloca as mãos na bola dentro da área. A irregularidade foi completamente ignorada pelo árbitro, deixando os jogadores do São Cristóvão indignados. Após muita confusão, os jogadores cadetes ameaçaram abandonar o campo, mas foram convencidos a continuar a partida. A torcida enfurecida hostilizava o juiz sem parar, e para impedir uma tragédia maior, a partida foi dada como encerrada 15 minutos antes do final.


Apesar da falta de educação por parte da torcida e o desrespeito dos jogadores com o juiz, que também teve suas falhas, a festa proporcionada pelos dirigentes do São Cristóvão Athletic Club, como ainda se chamava na época, foi maravilhosa e marcou a inauguração do estádio da Rua Figueira de Melo.


O Figueira de Melo, conhecido desde 2013 como Estádio Ronaldo Nazário, teve sua sede tombada em abril de 2020 por conta da sua relevância histórica e tradicional. Atualmente o clube espera regularização de alguns laudos para realizar jogos de futebol profissionais em casa.


Estádio Ronaldo Nazário, como é chamada atualmente a Figueira de Melo. Foto: João Eduardo Gurgel

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